quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Palimpsestos


Às vezes, somos assim: camadas sobrepostas de identidades perdidas. Palimpsestos cujas marcas brotam como feridas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sonhar é preciso

Ela partia sempre.  Dava as costas àquilo pelo que lutara muito e fugia, não sabia exatamente do  quê. Ouvia o som do alarme e corria, quase em desespero, com o coração a cavalgar furioso. Às vezes, acordava no meio da noite com aquele galope assustador. Levava muito tempo até reconciliar-se com o sono, que então vinha agitado, temendo a ameaça da distração.
Naquela noite, porém, viu-se em outro cenário. O galope não era de medo, mas de excitação. Os olhos brilhavam no escuro, tentando delimitar real e imaginário. O corpo, quase dengoso, aninhava-se ao aconchego da coberta macia. O calor chegava em ondas que acariciavam a pele dourada no dia de caminhada ao sol.
Era isso. Soltar as amarras. Deixar que o vento batesse no rosto.  Olhar para o sol que queimava a pele. Brincar com a água gelada que se moldava ao corpo. Sentir a brisa acariciando  a nuca. Misturar fantasia e realidade, sonhar. Finalmente descobrira aquela nesga de espaço onde sonho e realidade se misturam, onde o medo não tem lugar. Compreendera que fugir era fixar-se. Então, partiu, para ficar. Livre, finalmente, livre.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

As cores da liberdade

A água escorria suave ao longo do corpo, desenhando fios de calor. No rosto, ela moldava uma cortina, bordada com o relevo das lágrimas que deslizavam teimosas, sem se misturar. 
Na cabeça girava um turbilhão de pensamentos, links que a levavam de um ponto a outro, rodando sem parar.  Veio à cena o colar de pérolas que ele lhe dera quando tiveram o primeiro filho. Eram delicadas, em tom quase dourado, que inspirava sensação de frescor e limpeza, como a daquela água que deslizava sobre o corpo.
Em seguida saltou para outra cena, onde ele apertava seu braço com  força, desenhando um bracelete perfeito de ametistas que ela usou por longos e dolorosos dias.  A ele somou-se, pouco depois, em desenho irretocável, na garganta, um grosso cordão de  safiras orientais, que deu lugar a círculos em coral. Num sobressalto, ela viu-se de volta àquele quarto de hotel barato, com cheiro de bolor, e percebeu, olhando as pontas murchas dos dedos, que estava ali fazia muito tempo. De imediato,  saltou para a cena em que a enfermeira retirara a bandagem que encobria a cicatriz no rosto. Quando olhou-se ao espelho a pele estava assim, murcha como as pontas de seus dedos.
Fechou a torneira lentamente, como se não tivesse pressa. Enrolou o corpo macio com a toalha áspera e ligou o antigo aparelho televisor enquanto se preparava para sair dali. Na pequena tela, em som chiado, ouviu a notícia que aguardava: Em um bairro nobre de Campinas, num condomínio de luxo,  a polícia encontrara o corpo de um milionário, conhecido principalmente por sua participação em programas humanitários.
Desligou o aparelho, vestiu-se, fechou a porta e caminhou lentamente  acompanhando o desenho das pedras na calçada. O sol lembrava um enorme quartzo. A vegetação, cada vez mais densa, parecia esculpida em esmeraldas. O céu era uma gigantesca turquesa. E aquele monstro, certamente teria seu tumulo em  turmalina.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Cheiro de terra e gosto de liberdade

Os pés, descalços, doíam muito. O que mais incomodava era a ardência do atrito prolongado pela caminhada que já entrava no terceiro dia. Doíam também os tornozelos, inchados por causa da temperatura escaldante. A pele, coberta pelo pó avermelhado, contrastava com as unhas ainda brancas que haviam recebido uma delicada moldura, filete escuro nascido da mistura de terra e suor. Era isso. Descobrira, finalmente, sua identidade.

Ela era uma mistura de terra e de suor, resultado de luta, cheiro de barro. Agora podia parar. Compreendera qual era seu destino. Ao iniciar aquela caminhada, não sabia exatamente para onde ia, sequer sabia por que ia. Apenas seguiu. As pernas doíam, o olhos ardiam, a garganta seca repuxava, sufocando a voz que, mesmo antes disso tudo, nunca se fizera ouvir.

Calada. Fora assim a vida inteira. As coisas passavam pelos seus ouvidos, arrepiavam a pele, machucavam o peito, apertavam a garganta, escondiam-se em sua cabeça e dali não saiam. Ficavam, algumas como quadros irretocáveis diante dos olhos atônitos; outras como cenas em loop de um filme que não tinha fim, apenas rodava, rodava, rodava... fazendo-a tontear a ponto de perder os sentidos.

Mas nada saia de dentro dela. Guardava tudo, como uma enorme biblioteca. Havia prateleiras onde arquivava sentimentos de afeto, de mansidão, de amor, de carinho manhoso. Essas depositara lá atrás, bem no fundo. Eram relíquias a que poucos tinham acesso. Ela as lia, noite após noite, em segredo, escondida naquele grande sótão-biblioteca decorado de lembranças.

Mas havia também as noites de dor, quando escolhia as prateleiras do ângulo oposto. Nunca entendeu se aquelas noites eram especialmente longas por causa das leituras, ou se a seleção é que se dava por causa da preguiça daquele espaço de tempo. O fato é que não eram essas as preferidas. Lia-as, fazer o quê? Degustava o sabor amargo de cada sílaba. Revisava cada frase, buscava, na verdade, uma fresta, uma brecha por onde pudesse fugir, descobrindo uma possibilidade de equívoco, de má-interpretação que permitisse guardar aquilo na prateleira preferida, a do fundo. Talvez tivesse inventado esse jogo para enganar o tempo, longo a ponto de machucar. No fundo, sabia que a releitura não daria outro tom ao texto, pelo contrário, faria apenas sangrar velhas feridas.

Foi nesse dia, então, que decidiu. Não entraria mais lá. Fecharia aquele sótão-biblioteca com o cadeado do esquecimento, com a chave da loucura. Na noite de despedida arranjou-se com conforto. Leu e releu todas aquelas memórias. Quando a luz bateu na persiana, desenhando riscos no chão do quarto, sabia que era hora de partir. Levantou-se com cuidado, arrumou tudo com delicadeza. Trancou a porta e partiu.

Sabia o preço a pagar, mas apostou que valesse a pena. Tomou a estrada, sem rumo exato, apenas caminhava. No começo, tentou procurar a chave, quis mesmo arrombar o cadeado, mas deu-se conta de que era tarde. Apenas caminhava, olhando seus pés. Era uma sensação estranha perceber que eles doíam, mas que aquela dor estava do lado de fora, não conseguia entrar como a outra, que zumbia, corria, gritava, ardia, presa dentro dela e a prendê-la dentro de si.

Quando a encontraram, os pés ainda sangravam um pouco; o corpo estava quente, a pele, coberta de pó, era ainda macia. Os olhos pareciam em êxtase, fixos em alguma coisa que intrigava quase tanto quanto o sorriso desenhado naquele rosto misterioso... e tranquilo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sujestão????




Se olharmos com cuidado, veremos que na embalagem da lata de atum ao lado há uma sujestão para servir. Isso mesmo, sujestão, com J, o que certamente, causará uma indigestão, com G.

domingo, 12 de julho de 2009

De volta ao invisível

Ela adotara uma tática quase infalível, apesar de dolorosa. Ficar invisível – para tudo e para todos. Coisas, fatos, pessoas passavam, mas não a viam. Acostumaram-se, todos, com aquilo. Instalou-se, assim, uma espécie de zona de conforto, uma faixa onde sentia-se segura, apesar de, nunca, intocável.

Intocável ela não era, porque coisas, fatos e pessoas não a viam, mas batiam nela. Às vezes a trombada doia mais do que a invisibilidade, às vezes a invisibilidade doia muito mais do que qualquer trombada.

Um dia, acordou pela manhã e, estranho, não foi como nas outras: elétrica, com pressa, agitada. Despertou tranquila, mansa, parecia uma gata a espreguiçar-se entre as cobertas quentes. Estava decidido. Deixaria de ser invisível.

O dia soou diferente, olhavam-na desconfiados, afinal de contas, nunca estivera ali. Estavam acostumados, todos eles, a esbarrar em alguma coisa naquele lugar, mas não podiam acreditar que fosse nela. Não, decididamente, ela nunca estivera ali.

Na condição de invisível, transitava, ouvia, falava, escandalizava-se, enternecia-se, ria. Mas e agora, como fazer isso? Eles veriam tudo. Ouviriam sua voz, mesmo que não falasse, porque na verdade seus olhos diziam, seu corpo falava. Nada nela era como neles, que na condição de visíveis, haviam aprendido a interpretar, e muitos deles magnificamente.

As primeiras pancadas trouxeram algo que ainda não experimentara: lágrimas. Ela chorou muito. Batia uma ansiedade, um nó sufocava a garganta e as lágrimas escorriam. Era estranho, lavavam seu rosto com delicadeza, enquanto a dor apertava por dentro, revirando o estômago. Levou um certo tempo, mas ela foi acostumando com aquilo. As lágrimas foram secando, o estômago doia menos, a garganta continuava apertada, mas aí ela aprendeu a calar, aliviando a dor, que aos poucos foi se transferindo para a alma.

As manhãs se sucederam e a mansidão daquela especial, que a despertara diferente, deu lugar a uma tristeza que crescia de um jeito assustador. Não conseguia compreender como é que, agora, que era visível, sentia a solidão que, invisível, não exprerimentara. Até que um dia acordou com pressa, agitada, elétrica. Saiu de casa atrasada, tinha mil coisas a fazer. Circulou, arrumou, resolveu... e só então percebeu que estava de novo invisível. Decidiu, a partir daí, que seria assim: não voltaria mais àquele mundo de máscaras, de competição, onde sentimentos como a traição e a mentira construiam o que eles chamavam de relação.

Estava em paz, invisível, naquele seu pequeno mundo. Entendeu, finalmente, que ser visível era inscrever a dor na alma – um preço que não estava disposta a pagar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O mundo perdeu Naracy

No mesmo dia em que morria o inesquecível Michael Jackson, despedia-se da vida, também, o Naracy. Não branqueou a pele, não afinou o nariz, não teve a menor ligação com pedofilia, nem cantar ele sabia. Nunca lhe passou pela cabeça gastar U$ 30.000.000/ano mais do que recebesse.

O Naracy soube, de verdade, duas coisas na vida: amar e trabalhar. E se formos pensar bem, ele soube, mesmo, mesmo, apenas uma, pois trabalhar, para ele, era uma forma de amor. Se pararmos para pensar, então, o Naracy soube pouco da vida.

Teve seis filhos, e amou a todos com a mesma intensidade. Teve muitos netos, que o amaram com mais intensidade ainda. Casou-se e com seu grande amor viveu 54 anos. Trabalhou e construiu uma vida de respeito, de dignidade, de honra e de caráter.

Na cerimônia de despedida do Naracy não teve show, não teve caixão de ouro, não teve fofoca, boato, disque-disque. Teve dor, teve muita dor. Aquela dor contida, fininha, que parece que atravessa a gente como uma lâmina. Aquela que dói tanto que a gente fica calado, quase sem respirar.

E o danado do Naracy soube morrer como soube viver, quietinho, vendo o “lugar de cada hora”. Ele sabia que a sua havia chegado. Morreu cercado de filhos e netos, mas teve tempo de dizer a cada um o que precisava ouvir.

E ele foi esperto, montou um quebra-cabeça, pois o que disse a cada um somente poderia fazer sentido enquanto estivessem todos juntos. Ele era manso, calado, mas sábio.

Amai-vos, todos, sempre. Respeitar-se é o grande segredo. Cuidar da vó, que viveu ao seu lado mais de meio século. Estudar e crescer com respeito aos pais, orgulhando-os.

O Naracy tinha certeza de que plantara boas sementes, mas como era sábio, também sabia que somente partindo daria espaço aos filhos e netos para que fizessem a sua parte. Ele não foi manchete, não virou notícia. Afinal de contas, era apenas um sábio.

O que há com as pessoas?

Ouço colegas jornalistas anunciarem, em alvoroço, que nunca a Europa atingiu um tão alto nível de desemprego. Alardeiam, entre chocados, assustados e surpresos, que a economia européia cambaleia. Fui da surpresa ao riso, quando um jornalista, com sua voz pomposa, anunciou, em reportagem radiofônica, entre surpreso e hilário, que os países emergentes, ao contrário do que se esperava, eram os menos afetados pela crise que assola a economia mundial. Não posso acreditar que essas pessoas não se deem conta de que:

1. O fato de os países europeus (e devemos incluir os Estados Unidos nesse time) serem obrigados a suspender a exploração criminosa, por conta desses mesmos países emergentes despertarem para sentimentos de independência, autonomia, identidade e auto-sustentabilidade, fez com que europeus e norte-americanos fossem arremessados aos seus devidos lugares. Me vem à memória aquela velha história: Alguém teve a coragem de dizer que o Rei está nu.

2. As riquezas desses mesmos países emergentes foram, até bem recentemente, alavanca que impulsionou a economia européia, sustentando sua empáfia de desenvolvida e superior;

3. A mão-de-obra que excedesse os empregos disponíveis na Europa era rapidamente despachada para bem longe, receita perfeita para manter anãs as taxas de desemprego;

Precisamos nos dar conta de que a crise é deles, não é nossa. Precisamos lembrar que o capitalismo sempre foi muito competente na arte de esconder suas mazelas e precisamos nos dar conta de que as elites nunca sentiram pejo em associarem-se, no benefício de seus interesses particulares, a bandeiras que nem de longe beneficiam suas nações.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Novas denúncias partiram.... (Correio do Povo)


Acredito que o Brasil não tenha sido informado, ainda, de que a reforma ortográfica elimina o H no verbo haver, ou, então, a senhora a que se refere a matéria está, de fato, "escutando" mais do que qualquer um de nós.

O título da matéria do Correio do Povo de 10 de maio diz: Novas denúncias partiram da ex-mulher de Cavalcante. E a linha de apoio segue: Magda Koenigkan afirma que ouve desvio de dinheiro de campanha em 2006. Bem, se foi em 2006, ela não ouve, ela ouviu, mas, se existiu, então HOUVE desvio.

sábado, 2 de maio de 2009

Sobre a dor e sobre a cura

Quando o primeiro deles partiu, a dor tirava o fôlego. Apertava o peito, retorcia o estômago numa ardência  gelada, sem parar. O coração, na ânsia de não se entregar, batia celerado, e como os órgão todos  sentissem aquela dor, as lágrimas escorriam, longas, pelo rosto que acumulava o cansaço dela e das outras tantas que o silêncio dos anos impusera. Agora sim aquele silêncio tinha lugar. Antes, ele era descabido, era como um espinho a machucar a alma, a carne, o tudo.

Quando o segundo foi embora, ela já conhecia o tamanho da dor. Encolheu-se feito um caracol, protegida em dura carapaça, escudo perfeito. E nunca mais saiu de dentro daquela armadura.

Mas o terceiro foi embora e ela viu que a dor entrava também ali, e como estivesse presa, teve de haver-se com ela sozinha, zumbindo, preenchendo todos os espaços, apertando o coração que, cansado, corria menos... cada vez menos.

Quando o quarto foi embora, ela estava lá, acuada, acostumada com aquela dor, presa a um canto no caracol-labirinto. A dor maldita chamou reforços.  Machucou tanto  que já não havia como suportar. Foi quando ela viu a fenda, pequena, estreita como um fio de costurar. Compreendeu, então, que a saída era esgueirar-se por aquele lugar, deixando presa no caracol, sem saída, a dor que a atormentava. 

De início, a luz queimou quase tanto quanto a dor, mas era um queimar gostoso, que expandia os órgão trazendo uma sensação de calor e liberdade que ela esquecera como sentir fazia muito... muito tempo.