Se olharmos com cuidado, veremos que na embalagem da lata de atum ao lado há uma sujestão para servir. Isso mesmo, sujestão, com J, o que certamente, causará uma indigestão, com G.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Sujestão????
Se olharmos com cuidado, veremos que na embalagem da lata de atum ao lado há uma sujestão para servir. Isso mesmo, sujestão, com J, o que certamente, causará uma indigestão, com G.
domingo, 12 de julho de 2009
De volta ao invisível
Ela adotara uma tática quase infalível, apesar de dolorosa. Ficar invisível – para tudo e para todos. Coisas, fatos, pessoas passavam, mas não a viam. Acostumaram-se, todos, com aquilo. Instalou-se, assim, uma espécie de zona de conforto, uma faixa onde sentia-se segura, apesar de, nunca, intocável.
Intocável ela não era, porque coisas, fatos e pessoas não a viam, mas batiam nela. Às vezes a trombada doia mais do que a invisibilidade, às vezes a invisibilidade doia muito mais do que qualquer trombada.
Um dia, acordou pela manhã e, estranho, não foi como nas outras: elétrica, com pressa, agitada. Despertou tranquila, mansa, parecia uma gata a espreguiçar-se entre as cobertas quentes. Estava decidido. Deixaria de ser invisível.
O dia soou diferente, olhavam-na desconfiados, afinal de contas, nunca estivera ali. Estavam acostumados, todos eles, a esbarrar em alguma coisa naquele lugar, mas não podiam acreditar que fosse nela. Não, decididamente, ela nunca estivera ali.
Na condição de invisível, transitava, ouvia, falava, escandalizava-se, enternecia-se, ria. Mas e agora, como fazer isso? Eles veriam tudo. Ouviriam sua voz, mesmo que não falasse, porque na verdade seus olhos diziam, seu corpo falava. Nada nela era como neles, que na condição de visíveis, haviam aprendido a interpretar, e muitos deles magnificamente.
As primeiras pancadas trouxeram algo que ainda não experimentara: lágrimas. Ela chorou muito. Batia uma ansiedade, um nó sufocava a garganta e as lágrimas escorriam. Era estranho, lavavam seu rosto com delicadeza, enquanto a dor apertava por dentro, revirando o estômago. Levou um certo tempo, mas ela foi acostumando com aquilo. As lágrimas foram secando, o estômago doia menos, a garganta continuava apertada, mas aí ela aprendeu a calar, aliviando a dor, que aos poucos foi se transferindo para a alma.
As manhãs se sucederam e a mansidão daquela especial, que a despertara diferente, deu lugar a uma tristeza que crescia de um jeito assustador. Não conseguia compreender como é que, agora, que era visível, sentia a solidão que, invisível, não exprerimentara. Até que um dia acordou com pressa, agitada, elétrica. Saiu de casa atrasada, tinha mil coisas a fazer. Circulou, arrumou, resolveu... e só então percebeu que estava de novo invisível. Decidiu, a partir daí, que seria assim: não voltaria mais àquele mundo de máscaras, de competição, onde sentimentos como a traição e a mentira construiam o que eles chamavam de relação.
Estava em paz, invisível, naquele seu pequeno mundo. Entendeu, finalmente, que ser visível era inscrever a dor na alma – um preço que não estava disposta a pagar.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
O mundo perdeu Naracy
O Naracy soube, de verdade, duas coisas na vida: amar e trabalhar. E se formos pensar bem, ele soube, mesmo, mesmo, apenas uma, pois trabalhar, para ele, era uma forma de amor. Se pararmos para pensar, então, o Naracy soube pouco da vida.
Teve seis filhos, e amou a todos com a mesma intensidade. Teve muitos netos, que o amaram com mais intensidade ainda. Casou-se e com seu grande amor viveu 54 anos. Trabalhou e construiu uma vida de respeito, de dignidade, de honra e de caráter.
Na cerimônia de despedida do Naracy não teve show, não teve caixão de ouro, não teve fofoca, boato, disque-disque. Teve dor, teve muita dor. Aquela dor contida, fininha, que parece que atravessa a gente como uma lâmina. Aquela que dói tanto que a gente fica calado, quase sem respirar.
E o danado do Naracy soube morrer como soube viver, quietinho, vendo o “lugar de cada hora”. Ele sabia que a sua havia chegado. Morreu cercado de filhos e netos, mas teve tempo de dizer a cada um o que precisava ouvir.
E ele foi esperto, montou um quebra-cabeça, pois o que disse a cada um somente poderia fazer sentido enquanto estivessem todos juntos. Ele era manso, calado, mas sábio.
Amai-vos, todos, sempre. Respeitar-se é o grande segredo. Cuidar da vó, que viveu ao seu lado mais de meio século. Estudar e crescer com respeito aos pais, orgulhando-os.
O Naracy tinha certeza de que plantara boas sementes, mas como era sábio, também sabia que somente partindo daria espaço aos filhos e netos para que fizessem a sua parte. Ele não foi manchete, não virou notícia. Afinal de contas, era apenas um sábio.
O que há com as pessoas?
Ouço colegas jornalistas anunciarem, em alvoroço, que nunca a Europa atingiu um tão alto nível de desemprego. Alardeiam, entre chocados, assustados e surpresos, que a economia européia cambaleia. Fui da surpresa ao riso, quando um jornalista, com sua voz pomposa, anunciou, em reportagem radiofônica, entre surpreso e hilário, que os países emergentes, ao contrário do que se esperava, eram os menos afetados pela crise que assola a economia mundial. Não posso acreditar que essas pessoas não se deem conta de que:
1. O fato de os países europeus (e devemos incluir os Estados Unidos nesse time) serem obrigados a suspender a exploração criminosa, por conta desses mesmos países emergentes despertarem para sentimentos de independência, autonomia, identidade e auto-sustentabilidade, fez com que europeus e norte-americanos fossem arremessados aos seus devidos lugares. Me vem à memória aquela velha história: Alguém teve a coragem de dizer que o Rei está nu.
2. As riquezas desses mesmos países emergentes foram, até bem recentemente, alavanca que impulsionou a economia européia, sustentando sua empáfia de desenvolvida e superior;
3. A mão-de-obra que excedesse os empregos disponíveis na Europa era rapidamente despachada para bem longe, receita perfeita para manter anãs as taxas de desemprego;
Precisamos nos dar conta de que a crise é deles, não é nossa. Precisamos lembrar que o capitalismo sempre foi muito competente na arte de esconder suas mazelas e precisamos nos dar conta de que as elites nunca sentiram pejo em associarem-se, no benefício de seus interesses particulares, a bandeiras que nem de longe beneficiam suas nações.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Novas denúncias partiram.... (Correio do Povo)

Acredito que o Brasil não tenha sido informado, ainda, de que a reforma ortográfica elimina o H no verbo haver, ou, então, a senhora a que se refere a matéria está, de fato, "escutando" mais do que qualquer um de nós.
O título da matéria do Correio do Povo de 10 de maio diz: Novas denúncias partiram da ex-mulher de Cavalcante. E a linha de apoio segue: Magda Koenigkan afirma que ouve desvio de dinheiro de campanha em 2006. Bem, se foi em 2006, ela não ouve, ela ouviu, mas, se existiu, então HOUVE desvio.
sábado, 2 de maio de 2009
Sobre a dor e sobre a cura
Quando o primeiro deles partiu, a dor tirava o fôlego. Apertava o peito, retorcia o estômago numa ardência gelada, sem parar. O coração, na ânsia de não se entregar, batia celerado, e como os órgão todos sentissem aquela dor, as lágrimas escorriam, longas, pelo rosto que acumulava o cansaço dela e das outras tantas que o silêncio dos anos impusera. Agora sim aquele silêncio tinha lugar. Antes, ele era descabido, era como um espinho a machucar a alma, a carne, o tudo.
Quando o segundo foi embora, ela já conhecia o tamanho da dor. Encolheu-se feito um caracol, protegida em dura carapaça, escudo perfeito. E nunca mais saiu de dentro daquela armadura.
Mas o terceiro foi embora e ela viu que a dor entrava também ali, e como estivesse presa, teve de haver-se com ela sozinha, zumbindo, preenchendo todos os espaços, apertando o coração que, cansado, corria menos... cada vez menos.
Quando o quarto foi embora, ela estava lá, acuada, acostumada com aquela dor, presa a um canto no caracol-labirinto. A dor maldita chamou reforços. Machucou tanto que já não havia como suportar. Foi quando ela viu a fenda, pequena, estreita como um fio de costurar. Compreendeu, então, que a saída era esgueirar-se por aquele lugar, deixando presa no caracol, sem saída, a dor que a atormentava.
De início, a luz queimou quase tanto quanto a dor, mas era um queimar gostoso, que expandia os órgão trazendo uma sensação de calor e liberdade que ela esquecera como sentir fazia muito... muito tempo.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Lembranças
Os finos dentes do pente iam destruindo os grossos cachos ruivos, que deixavam um rastro sinuoso, curvas convictas de seu lugar. As mãos, nervosas, alisavam aquele cabelo, livrando-se da camada de gel e moldando, aos poucos, uma escultura irretocável de fios retos, lisos, atados à presilha dourada.
Os olhos atentos procuravam rebeldes, derrotando um a um. Vez por outra, enquanto as mãos continuavam o trabalho mecânico, arrancando pequenos punhados, o pensamento ondulava, emaranhava-se, enrolava-se por completo. Rápida, a mão dava um jeito de provocar dor aguda, um susto que a trazia de volta ao exterior, zelosa, tecendo a toalha de fios.
Aquela luta se renovava diária e pontualmente às 8 horas. Era a essa hora que os pensamentos buscavam a outra forma, o outro jeito, o outro quarto, onde um cheiro de flores de laranjeira entrava pela janela, enquanto ele ia para o chuveiro, sempre antes atirando a coberta, descuidado, e arrastando os pés, para sentir o frio gostoso do assoalho, que fazia-o acordar de vez.
Agora, o quarto solitário, sem cheiro, vazio, apenas os cachos teimosos que insistiam, maldição, em memorizar aquele toque, os dedos que gostavam de enrolá-los, brincando, como se corressem ofegantes, excitados, ao longo das loucas curvas daqueles túneis.
sábado, 25 de abril de 2009
De sonhos e verdades
Sentada com as pernas entreabertas, pontas de pés para dentro, uma saia muito justa, que deixava à mostra as coxas finas e as meias rasgadas, ela olhava para um lugar distante, fixado num calendário que sequer podia decifrar. Com olhos quase tão pretos quanto os cabelos, piscava como que querendo focar uma imagem, um pedaço de passado talvez, já que a possibilidade de futuro não conseguia driblar o presente, enxarcado de uísque com guaraná. O rímel barato, borrado, misturava-se às olheiras demarcadas em meia lua perfeita, contornada por pequenos buquês de sardas que despontavam sob grossa camada de pó e de blush rosado.
No bar, gargalhadas, vozes estridentes, homens e mulheres que desconheciam sua própria condição, como animais, alguns acuados, outros agressivos, num jogo dolorido de olhares lascivos e almas cansadas. A penumbra, como um manto suave, encobria a dor, o cansaço, a vergonha, a raiva, a fome, a tontura... Mas não encobria aquelas lembranças, quadros que pareciam ter uma sequência, e que, ela não sabia por que, insistiam em voltar, sempre, sempre, sem nunca fazer sentido.
Ele tinha 25 anos. Escrever, não sabia. Já passara por tantas cidades, tantos ranchos, tantas taperas, que perdera a conta, até porque, seu contar não ia muito longe. O pai dizia, desde que lembrava, que a cabeça do guri não ajudava. Aprendeu a manusear a foice, e foi roçando. Cidades, conhecera muitas. Eram duras, ofereciam fome, frio, mais miséria. Acabava sempre no campo. Um colchão velho, um trapo que cobrisse o corpo, a foice sempre consigo. Tudo o que era seu cabia num caixa de papelão. Novo plantio, nova colheita, nova campanha, nova cidade, iam os três, ele, a caixa e a foice, mundo a fora, que devia haver bem mais do que aquilo que as pernas já haviam alcançado. Até que conheceu aquela mulher, meio mulher meio criança.
A louca paixão teve seu tempo e teve seu fruto. A menina era miúda, de cabelos e olhos pretos de assustar. Os olhos, então, pareciam não ter fundo, eram como uma caverna de mistérios a perguntar sobre as coisas que viam. Não levou muitas colheitas, ele, a caixa e a foice, nova cidade, novo rancho, o mesmo trapo, a dormir encolhido num canto, agora a sonhar com aquela menina. Único tesouro que teve, única coisa boa que passara por sua vida, ficava a repetir, antes que o entorpecimento do álcool apagasse, aos poucos, a imagem daqueles olhinhos quase tão pretos quanto os cabelos.
Presa ao balcão, desafiando a tontura, lutando para não perder aquele quadro que insistia em dançar a sua frente, ela não conseguia compreender quem seria aquele sujeito. E não entendia porque ele se afastava, carregando aquela estranha caixa. Sabe lá Deus. É doideira, refletia, sempre intrigada.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Luz no fim do túnel
As pernas, entre trêmulas e teimosas, insistiam num movimento que já não dava prá saber em que direção ia. Agora estava claro o significado de “velocidade da luz” pois ela corria, ia, vinha, voltava, passava num assovio estranho, às vezes assustador. Luz assovia? Sim, assovia e também produz um vento gostoso, quase gelado, que canta com ela.
As pernas cansadas, a cabeça rodando, os braços inertes, apenas o coração desafina, batendo forte feito um tambor. O corpo tenta acompanhar o ritmo do assovio, a direção da melodia... ignorar aquele coração destemperado que sobe até a garganta, numa dança inoportuna. Esquerda, direita, prá frente, prá trás... Um estrondo. Silêncio. Sem luz. Sem vento. A escuridão que acalma. O cheiro de chiclete de melancia. Anoiteceu? Acabou.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Sobre medos e vitórias
Despiu-se lentamente, deslizando para o fundo da banheira. A água, quente, gostosa, quase queimando, provocava um arrepio no corpo, ao mesmo tempo em que os ombros, descobertos, sentiam um choque quase gelado.
Esfregar com força, atritando a esponja que poderia ser macia, não aliviava aquela sensação de dor, que comprimia a pele contra os ossos, que apertava o músculos, sufocava a garganta, apagava a voz. Esfregar, esfregar, esfregar... O vermelhidão dava sinais do cansaço dos braços, mas a dor não cedia.
Quem sabe limpar de dentro pra fora? Mergulhar, beber daquela água, borrifar, enxaguar, lavar tudo, vomitar aquela dor? Os olhos vermelhos e o arfar do peito, quase descontrolado, mostravam que não, não adiantava. Aquela dor continuava lá. Desmedida, tomando conta de tudo. E se tentasse o meio? Os entrefios, a seiva que alimentava aquela dor? Sim, poderia ser, o meio... o meio...
A lâmina era tão delicada. Brilhava. O reflexo da luz, uma nesga da banheira, o canto do olho esquerdo. Ele sempre se sobressaíra, é engraçado lembrar, mas era ele quem via tudo primeiro. Era ele próprio quem anunciava quando a dor se aproximava mansa, instalando-se airosa e castigando-o, propositadamente, mais do que ao resto do corpo. O canto do olho esquerdo, uma nesga da banheira, uma gota vermelha, um borrão amorfo, aveludado, quase macio, que se apagava lentamente, arrastando consigo aquela dor maldita, enfim derrotada, aquela angústia que já não sufocava mais... Um alívio delicado, sensação de liberdade. No meio, no meio... a resposta estivera presa ali todo esse tempo, esperando que a resgatassem.